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PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE A BONDADE



EU PRECISO SER BOM!

Apesar de, na atualidade, ser veiculado pelos meios de comunicação que vivemos em uma barbárie sem fim, em um contexto de repleta violência e indiferença, cotidianamente encontro, em maior número, pessoas extremamente violentas, não com os outros como propagam raivosamente esses profetas do apocalipse, mas contra a si mesmos.

Em nome de uma suposta solidariedade a todo custo, essas pessoas sacrificam as suas oportunidades, os seus desejos e as suas necessidades em favor de suprir as expectativas dos outros. Tornando-se reféns de um doar-se que para ser percebido como real e gratificante cada vez mais precisa ser automutilador, a intensidade do sacrifício pessoal apresenta-se como a medida da bondade. Só em certos setores da sociedade essa atitude é exaltada.

São consideradas as pessoas que jamais reclamaram, nem causaram problemas, que não discutem, não demonstram agressividade, dificilmente expressam uma opinião genuína se ela for diferente da do grupo e está sempre envolvida em problemas que não são seus originalmente. Quando não conseguem mais suprir as necessidades dos outros são fortemente ofendidas e tratadas como egoístas e indiferentes. Consideram ser melhor machucar a si do que os outros, pessoas boas conseguem ser felizes assim, se você não está conseguindo é porque ainda não se doou o bastante. Em uma situação de oposição de necessidades, a dela é sempre menos importante, podendo ser adiada.

Pode ser que você ainda se pergunte como isso pode ser ruim. Bem, quando a bondade ou qualquer outra atitude deixa de ser uma possibilidade de comportamento, passando a configurar-se como uma obrigação, existe uma quebra no contato com a situação que se apresenta, pois você tem que se comportar de uma forma pré-definida, não importando o que está acontecendo.

Socialmente, a bondade é estimulada em relação ao outro, não somos estimulados a nos presentearmos, a nos acolhermos, a pedirmos ajuda, devemos sempre esperar ou fazer jogos manipulativos até que as pessoas a nossa volta percebam o que precisamos.

Essa dinâmica, associa o sentido da nossa existência à aplacar todo o sofrimento possível das pessoas com a nossa vida, com isso nos impedindo de dizermos livremente: “NÃO! Eu não quero isso! Eu não aceito isso!", sem ficarmos intensamente constrangidos, inventando desculpas que nos desresponsabilize ou apressando-se para pedir desculpas por ter dito não. Essas situações, mesmo trazendo muito sofrimento, demonstra o quanto estamos submetidos à crença que “EU PRECISO SER BOM!” e só nos resta deixar-se invadir e corresponder ao desejo alheio é, então, a única escolha e, qualquer resistência, é atravessada por uma grande angústia seguida por fantasias catastróficas.

Já que o repertório existencial para lidar com a vida foi atrofiado, o nosso comportamento padrão é ser bom. Então, quanto mais imprevisível e perigosa possa ser a situação que nos encontramos, somos levados a nos apresentarmos como bons a todo custo porque precisamos que o outro seja bom também e nos ajude a superar qualquer desafio que apareça. Nós nos distanciamos das nossas potencialidades e recursos, estamos exclusivamente à mercê dos outros, e por isso, precisamos adivinhar ou insistir até que ele nos diga: “o que ele quer”, “o que ele precisa”, “o que eu posso fazer por ele”, “o que ele está pensando de mim”.

Há momentos em que é necessário desistir de salvar alguém, passando a sensibilizar-se sobre a sua existência e seus processos, sendo bom consigo para possibilitar a melhora e o crescimento de ambos.


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