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“Um Homem como os Outros?” Por Henrique Almeida Silva Galrão


Fotografia: “Songs of Freedom” (2019) - Michael Aboya



Quando Achille Mbembe aponta o seguinte questionamento em seu livro “Crítica da Razão Negra”, me provoca a reflexão de onde encontram-se os homens negros no discurso sobre Masculinidade(s). Entendida enquanto universal e estática, a masculinidade convencional carrega em seu âmago uma estrutura mediada pelo patriarcado e soberania, contribuindo para a manutenção de hierarquias sociais de gênero, raça e classe. Mas o principal fator que afasta o Homem Negro desta definição é o então Ideal de Humanidade configurado a essa definição, estabelecido, durante a colonização, ao Homem Branco, cisgênero, heterossexual, acobertado por direitos, detentor de bens e riquezas.


Permeados por algumas vantagens sociais do significado do “ser homem” em uma sociedade patriarcal, os homens negros, em suas inúmeras performances de masculinidades, ocupam socialmente lugares de subalternidade, onde a construção de sua identidade se dá meio a uma ruptura causada durante o período colonial. Esses corpos-conflitos estão submetidos a outros modos de existir, atravessados por significantes sociais, biológicos, subjetivos e culturais da negritude, ressignificados pelo racismo, engendrando marcadores de (des)humanidade em seus corpos, como a cultura do terror, a exigência desigual e exacerbada no mercado de trabalho, a hipersexualidade, etc. Psiquicamente essa condição de “Outro” estabelecida pelo sujeito branco sobre o sujeito negro, concebe o que Grada Kilomba chamará de “Outridade”, em que o(a) negra(o) sequer deterá a condição de pensar sua identidade e subjetividade, provocando em si um conflito cotidiano com o que é dito sobre seu corpo e o que de fato o constitui enquanto “eu”.


Pensando esse corpo-objeto, essa condição de “outridade” contribui para sua subjetivação e o estabelecimento de estereótipos irreais como a ideia de um corpo inabalável, desprovido de socialização de afetos positivos, da necessidade de cuidados e sem espaço para dores e angústias, o que socialmente autorizam por ordens de ação e discurso, práticas de encarceramento, solidão, aculturação, adoecimento físico-psíquico e morte.


O descaso do homem negro consigo é um dos reflexos do racismo e do machismo, o que resulta na baixa procura por serviços de saúde, acarretando na maior propensão a desenvolver e morrer por doenças evitáveis, infecciosas e parasitárias, alguns transtornos mentais e causas externas. No que tange à saúde mental do homem negro, nota-se como resultado dessa produção fatores a insegurança sobre seu potencial, instabilidade emocional, o abuso de álcool e outras drogas e o suicídio, processos esses que, assim como apontado anteriormente, servem para a manutenção de estereótipos que marginalizam esse sujeito. Ratifica-se também o preterimento dos corpos negros nos serviços de saúde, que reforça uma política de morte e contribui para o estabelecimento de um não lugar para o cuidado da população negra em geral.


Pensar o cuidado à Saúde Mental dos Homens Negros é, primeiramente, abdicar de uma compreensão colonial imposta a esses sujeitos, permitindo o resgate de sua memória e ancestralidade para que uma nova narrativa seja estabelecida por esses sujeitos em sua produção identitária. Para isso é necessário compreende-lo para além do sofrimento psíquico, estabelecendo em seu processo de emancipação o estabelecimento de práticas individuais e coletivas do cuidado de si. É fundamental que a apropriação de outros saberes que possibilitem esse processo de reinvenção a partir de uma lógica interseccional e decolonial, permitindo que nessa virada epistemológica não sejam produzidas novas práticas de subjetivação e colonização disfarçadas de práticas de cuidado.

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