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Saúde mental e maternidade



Essa cena não é rara: bebê precisando de cuidados, a casa aguardando um momento para que você se dedique as atividades domésticas e o retorno ao trabalho batendo na porta. Como pensar em saúde mental diante de tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo?

Em nossa sociedade, historicamente a mulher ocupa o papel de responsável por gerir o lar e também criar os filhos. Temos alguns exemplos que hoje fogem à essa regra, porém ainda é muito comum escutar o relato do cansaço e culpa materna.

Diante de tantas exigências é bastante natural acreditar que tudo isso não passa de uma fase que depois vai passar. A cobrança chega por todos os lados, de conhecidos e também dos desconhecidos, os olhares são implacáveis na hora de emitir a desaprovação por ver um bebê chorando na fila do banco ou dentro do metrô, mas poucas são as pessoas (em alguns momentos nenhuma), que se aproximam para saber o que de fato aquela mãe precisa nesse momento. Como ousar verbalizar que precisa de ajuda, de um momento de cuidados com a saúde mental se as vezes não existe esse apoio nem mesmo para que se tenha acesso aos cuidados básicos (tomar banho, fazer uma refeição inteira sem interrupções, lavar o cabelo com calma, e por aí vai).

Isso não acontece apenas com você, mas na maternidade se torna ainda mais forte o julgamento quando esse cansaço é verbalizado, culturalmente a sociedade não reconhece com a mesma importância o cansaço físico e patologias biológicas em relação a saúde mental, priorizando as duas primeiras em detrimento da outra. Quando colocamos o assunto maternidade no meio disso, a situação fica muito mais complexa uma vez que existe a romantização da maternidade, onde o amor e desejo da mãe em estar junto ao seu filho deveriam ser inesgotáveis e sobrepor qualquer mal estar físico e principalmente psicológico. Não é bem assim que acontece na realidade e tudo bem.

Tudo bem se sentir triste, sozinha, frustada e cansada. E tudo bem priorizar a sua saúde mental.

Como ofertar cuidados e amor de forma plena e vigorosa quando tudo dentro de você está fora do lugar? Não há fórmula mágica, é preciso fazer uma pausa, reconhecer e legitimar a necessidade de olhar para si em um momento que nos cobram total abdicação de nossas vontades e necessidades.

E não para por aí, os desafios da maternidade não aparecem apenas no primeiro momento (puerpério), apesar de ser um momento de intensidade e adaptação, mas muitos outros desafios vão surgindo, por exemplo: dar conta da profissão e conciliar com as necessidades dos filhos, ter tempo para uma vida social de qualidade e ainda assim estar presente nos momentos importantes dos filhos, adaptar-se ao novo modelo de casal que surge após a maternidade compreendendo que agora não são apenas cônjuges, mas que são pais também e esses dois papéis precisam estar bem definidos para não comprometerem a saúde do relacionamento, entre muitas outras coisas.

Certa vez, li uma frase que fez muito sentido para mim e gostaria de deixá-la aqui como reflexão final para esse texto: a coisa mais profunda que temos a oferecer aos nossos filhos é a nossa própria cura (Anne Lamott).

Cuide de você, priorize o seu bem estar. Você é agora.

Imagem: <a href="https://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/bebe">Bebê foto criado por onlyyouqj - br.freepik.com</a>


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